domingo, 8 de novembro de 2009

A arte de decidir

Os trechos abaixo, que se referem à arte de decidir, foram extraídos de um artigo publicado na Revista Isto É (edição 2087/artigo155635-6). É muito interessante, .... leia:


- Todos os rumos de nossas vidas são definidos por decisões. Não passamos um dia sequer sem fazer escolhas, das mais simples, como que roupa vestir, às mais complexas. Casar ou não casar? Mudar de emprego ou não? Morar em outro país ou ficar onde está? Aguentar firme ou jogar tudo para o alto? Decidir pode influenciar não só os caminhos de quem escolhe, mas também dos que estão próximos ou dependem, de alguma maneira, daquele que deseja fazer modificações pessoais e profissionais. Não é fácil. Pode ser, inclusive, doloroso. (....). Uma das novidades mais recentes sobre a tomada de decisão vem de um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Os pesquisadores descobriram que, durante o sono, os neurônios fazem novas conexões cerebrais, estimulando a solução de problemas. (....). A pessoa encontra uma saída melhor para a dúvida se parar de pensar nela exaustivamente. Dormir é o descanso ideal para o cérebro ativar a criatividade na fase REM (sigla em inglês para o movimento rápido dos olhos). Ela acontece depois dos sonhos. Nesse período, a questão permanece na mente, mas livre de preconceitos que acabam influenciando as decisões quando estamos acordados. "Esse estudo reforça outros trabalhos", disse à ISTOÉ o psicólogo americano John M. Grohol, um dos entusiastas da tese. "Já existiam evidências de que, quanto mais pensamos sobre um assunto, pior a decisão tomada. No sono, o inconsciente trabalha sem teorias preconcebidas." (....). Mas uma boa noite de sono sozinha não faz milagres. Há obstáculos a serem vencidos para que as escolhas sejam equilibradas. Entre eles, está o medo de perder vantagens. "Os pensamentos confusos que limitam as decisões têm origem no temor de ficar sem alguma coisa", afirma a psicóloga Adriana de Araújo, especialista em hipnose e programação neurolinguística (PNL). Mas isso vai acontecer, independentemente da decisão. É o peso dos prós e contras que tornam as escolhas complicadas. (....). Nada, no entanto, é tão inimigo da tomada de decisão quanto a impulsividade. "A emoção é uma catástrofe nessas horas", diz o coach Sulivan França, presidente da Sociedade LatinoAmericana de Coaching. "Quanta gente não chuta o balde no trabalho em um momento emocionalmente tenso, vai para outra empresa e o lugar é pior?" Ele garante que 90% das vezes em que a escolha é impulsiva o resultado é o arrependimento. (....). No livro "Fontes do Poder - O Modo como as Pessoas Tomam Decisões" (Ed. Instituto Piaget), o psicólogo americano Gary Klein mostra que os profissionais próximos do perigo, como bombeiros e policiais, acabam por desconsiderar tudo o que estudaram anos a fio e seguem a intuição em momentos de pressão. Vem à tona o instinto de sobrevivência e a internalização do dever a que o indivíduo se comprometeu ao escolher o ofício. Não importa como salvar. O que importa é salvar. As outras pessoas também estão sujeitas a esse impulso, mas os profissionais treinados podem acessar instintivamente o que aprenderam, sem parar para pensar racionalmente, elevando a chance de essa decisão perigosa dar mais certo. (....)."Uma decisão difícil foi trocar uma carreira militar segura pela carreira diplomática. Mas acredito que não existe decisão isolada. A regra é estar em algum contexto. O importante é estar bem informado e avaliar possíveis desdobramentos. A emoção, o coração sempre influenciam. Mas ceder pode levar a arrependimentos. Prefiro a razão. E a intuição faz parte da razão. A intuição, mesmo que não se queira admitir, também resulta do amadurecimento." (....). A tomada de decisão acontece no córtex pré-frontal, área do cérebro responsável, entre outras coisas, por gerar crenças e testar opiniões. É a parte da razão. A lucidez que nos indica o que é coerente e quais são as consequências das nossas ações. E quem consegue decidir sem nem um pouquinho de sentimento? Ninguém, graças à amígdala, região cerebral onde ficam guardadas as memórias ligadas à emoção. A briga entre o córtex e a amígdala na hora da decisão pode ser compreendida pelos relacionamentos amorosos instáveis. Enquanto um diz "termine, você sabe que será magoado de novo", o outro insiste: "Ah, lembra daquela viagem romântica, dos momentos tão especiais?" A motivação dirá quem vence a batalha. E ela depende muito de como o indivíduo desenvolveu a necessidade de decisão da infância à vida adulta. Isso inclui aprender a empreender, ter responsabilidades, pesar vantagens e desvantagens e saber perder. O modelo de escolha saudável é reforçado pelas figuras que cercam cada um de nós. Na última semana, foi divulgada uma pesquisa da Universidade de Nova Gales, na Austrália, indicando que pessoas mal-humoradas e tristes têm melhor capacidade de julgamento. Mas não quer dizer que o sofrimento seja a chave da decisão coerente. O mesmo estudo mostrou ainda que um estado de ânimo positivo facilita a criatividade, outro fator do processo decisório. (....)."Fiz parte da equipe que cuidou do ex-governador Mario Covas durante sua luta contra o câncer. Dias antes de morrer, ele me disse que eu saberia até onde ir com o tratamento. Quando esse momento chegou, foi muito difícil. Primeiro porque, além de meu paciente, éramos muito amigos. Mas a ciência tem limites. Foi uma decisão baseada na minha experiência e na vontade dele e da família. Ele morreu no quarto, junto com familiares, como queria.
“Sou treinado para tomar decisões. Na vida de médico, elas são uma rotina. Seja qual for a circunstância, não posso errar nas minhas decisões. Mas é preciso ter competência individual para decidir. Não ajo por impulso ou movido pela emoção. Algumas vezes uso a intuição, mas sempre pautada na minha experiência. Já tomei decisões erradas. E isso me ajudou a refinar os meus critérios." (....)."A decisão mais difícil da minha vida foi deixar a iniciativa privada, meio no qual fui criado, para me dedicar à vida pública. Neste quesito decidi baseado na intuição e na razão. Intuitivamente acreditei que teria muito a fazer e a contribuir para o desenvolvimento do Amazonas. Também intuí que teria muito a aprender com as pessoas que habitam meu Estado, teria muito a aprender com a vivência que a vida pública possibilita. Racionalmente, entendi que não seria um empresário completo, que não teria a excelência necessária para ter sucesso absoluto nos negócios, porque havia em mim a paixão pela vida pública. Então, usei a razão para decidir o que minha intuição me mostrava. E deu certo." (....). O uso da razão com a intuição é o melhor método de escolha, dizem os especialistas. Ponderar é fundamental. Assim como considerar sensações baseadas na experiência. A intuição, ao contrário do que muitos imaginam, não tem nenhuma relação com crenças ou poderes paranormais. Ela é reflexo das recordações de situações vividas anteriormente. Também a observação é importante, já que algumas lembranças parecidas são negativas - e isso pode ser traiçoeiro para uma boa decisão. Em geral, todo mundo tem a chance de fazer boas escolhas. É possível, inclusive, aprender a desenvolver esse talento com cursos específicos e terapias. Mas, para chegar lá, é preciso ser honesto consigo mesmo nas avaliações mais íntimas, pesando as emoções que cada possibilidade causa. Como provam os entrevistados, uma decisão acertada se torna uma grande conquista. _________________________________________________ (palavras minhas: .... os especialistas recomendam-nos a tomarmos as nossas decisões levando em consideração a razão e a intuição. Entretanto, psicanislas recomendam que é também aconselhável uma certa atenção às respostas obtidas através dos sonhos, como também aos desejos impulsionados pela emoção. Por meio da razão, as pessoas devem analisar todas as manifestações aqui descritas, antes de tomar a decisão....)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

É saudável educar filhos de forma individualizada

UOL - Caim e Abel constituem um primeiro modelo da relação entre irmãos, um modelo trágico. Inveja, ciúmes e fratricídio são os temas dessa história.
É provável que, por existir esse lado escuro na relação arquetípica entre irmãos, os pais se preocupam, desde muito cedo, em favorecer sempre o altruísmo e a amizade entre seus filhos, isto é, o lado luminoso da relação. A intenção é louvável, entretanto, as ações dos pais, nesse sentido, não impedem, necessariamente, o aparecimento das brigas e das rivalidades entre os filhos. Ao contrário, com frequência, o que os pais fazem, reforça os ciúmes e impede o desenvolvimento de uma boa fraternagem. A preocupação já se inicia quando da gestação do segundo filho. Muitas vezes surge a pena do primeiro filho, pois se acredita que ele irá deixar de ser o centro único da atenção da família. Pena, por quê? Na verdade, ele não terá perdas, mas ganhos, dentre eles o privilégio de ter um irmão. Desses dois pressupostos decorrem duas posturas completamente diferentes, com consequências também diferentes.Acreditando-se que a criança terá um privilégio, não se justificam presentes como consolação pela futura “perda”, mas comemoração antecipada pelos ganhos. Um irmão traz a possibilidade do aprendizado da relação de companheirismo, ensina a dividir, a cooperar, a ceder, a fazer trocas, enfim a compartilhar o mundo com as outras pessoas. São de fato, muitos ganhos.
Tratamento igualitário é prejudicial. Pensando que estão a evitar ciúmes, os pais tendem a tratar os filhos de forma igualitária, o que significa presentes para os dois, mesmos limites, mesmo horários etc. Esquecem que eles têm idades diferentes e, portanto, direitos e deveres diferentes. O nivelar as crianças da família, isto é tratá-los da mesma maneira traz ainda problemas decorrentes: o mais velho será infantilizado e o mais novo precocemente forçado a se desenvolver, o que é ruim para ambos. Além disso, tal forma de criar filhos, reforça os ciúmes dos irmãos, pois eles tenderão a disputar tudo e a controlar tudo, para verificar se não estão sendo “prejudicados”. As crianças precisam ser individualizadas dentro da família, cada uma com suas necessidades, desejos, deveres e privilégios. Os mais velhos podem fazer coisas que os menores não podem ainda e que farão quando tiverem a idade adequada. Crescer é ganhar mais responsabilidades, mas também mais direitos. As crianças têm que ter a certeza de que é vantajoso crescer. A família é um sistema dinâmico de relações, onde cada um precisa ter seu lugar bem explicitado. Essa forma individualizada de educar os filhos não irá erradicar as brigas, as crises de ciúme, mas diminuirá a intensidade e a frequência delas.
Pais não podem se colocar no lugar de juízes frente às brigas de seus filhos. Outro aspecto que merece ser lembrado é que os pais não podem se colocar no lugar de juízes frente às brigas de seus filhos. Não cabe aos pais legislar, buscar descobrir quem é o culpado, para puni-lo. Crianças brigam hoje por algo que vai acontecer amanhã. Provocações entre eles constituem um método infalível de chamar a atenção dos pais. Assim, o melhor é não entrar na discussão entre eles. É mais eficaz, se afastar para não dar plateia à briga ou então colocar os dois briguentos de castigo, sem querer saber “quem começou”.No carro, provocações e brigas entre os irmãos são frequentes quando os pais os levam para a escola, para passeios, para viagens, etc. O nível da disputa é, às vezes, tão alto que atrapalha ou torna perigosa a direção. Para as crianças pode ser uma situação ideal para usar das provocações entre eles para chamar a atenção dos pais. Brigam pela posição no carro, disputam para entrar primeiro, encostam um no outro, reclamam do que o outro fala, do que não fala, enfim, tudo se torna motivo para querelas, nas quais o conteúdo pouco importa. Assim, discutir o conteúdo das brigas não resolve. O que funciona pode ser: impor o silêncio, voltar imediatamente para casa no caso de passeios, não levá-los para a escola por uns tempos, terceirizando a função, se possível. Em síntese, a companhia dos pais deve ser sentida como um presente, um privilégio para os filhos e eles precisam ser ensinados a merecê-la. Existe um ditado popular que diz que quanto mais os irmãos brigarem na infância, mais amigos serão na idade adulta. Deve-se acrescentar: desde que os pais não interfiram nas disputas. (Ceres Araujo: É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.)
http://www2.uol.com.br/vyaestelar/familia_filho_individualizado.htm

O mundo interior da criança: a relação consigo mesmo

UOL - Como homo sapiens-sapiens o ser humano ganhou a possibilidade da bi-reflexibilidade, isto é, o ser humano pensa e pode refletir sobre o que pensa, ele sabe e sabe que sabe. Tal possibilidade é fundamental para que o homem se desenvolva de maneira íntegra e *resiliente. Adquirimos e desenvolvemos papéis diferentes na sociedade em que vivemos. No âmbito familiar, somos filhos, pais, irmãos, netos, avós, cunhados, genros ou noras, sogros, tios, sobrinhos, primos, muitas vezes somos padrastos ou madrastas e enteados. No âmbito profissional e social, somos chefes, subordinados, colegas, parceiros, companheiros, amigos e às vezes até inimigos. Papel do filho. Adquirimos cada papel na relação com um outro ser da mesma espécie e a maneira pela qual experimentamos nosso primeiro papel, o papel de filho, costuma influenciar o modo pelo qual estabeleceremos os demais papéis no mundo. Decorre assim, a grande importância da função dos pais na relação com seus filhos. Para adquirir e desenvolver todos os papéis que a vida nos dá ou nos impõe, precisamos usar da nossa capacidade de adaptação ao outro. Nesse processo de adaptação aprendemos a ceder e a nos impor na medida do necessário. Entretanto, o ser humano não se define apenas pelos papéis que ele exerce na sociedade. É importante considerar que a pessoa exerce papéis, mas ela não pode ser confundida com os papéis que possui. Ela se relaciona com os outros através dos papéis que adquiriu, mas, simultaneamente, também precisa se relacionar consigo mesmo. É a relação consigo mesmo, o diálogo com o mundo interno, chamado capacidade para a introspecção, que dá consistência, integridade e coerência à existência do ser humano. Assim, nos desenvolvemos adequadamente à medida que nos relacionamos com o mundo externo e o interno, na medida em que somos capazes de realizarmos a mediação entre as exigências das pessoas e das situações do mundo externo e as exigências dos impulsos e dos desejos do nosso mundo interno. É uma pena que muitas pessoas precisam sempre do contato com o outro, para se sentirem existentes. Não conseguem se entreter sozinhas, não têm diálogo consigo mesmas e sofrem com o que nomeiam como solidão. São pessoas que não usam da função da imaginação, da fantasia e não buscam em si mesmas as fontes da criatividade e do desenvolvimento pessoal. Diálogo interno é essencial. Precisamos aprender a “conversar” conosco desde idades muito precoces. O bebê brinca com suas mãos, já nas primeiras semanas de vida. As mãos constituem seu primeiro brinquedo. Passam a explorar o mundo e precisam da ajuda do adulto nessa exploração para aprender o significado de sua ação. Entretanto, o bebê e a criança precisam aprender a brincar, a se entreter também sozinhos para criar um espaço interno, que será recheado pela representação mental da experiência vivida com os outros, pela fantasia, pelo desejo, pelo devaneio e pela criação. Existem pais que, por diferentes razões, não conseguem ensinar seus filhos a ficarem sós. Essa não é uma lição fácil de ser ministrada e nem fácil de ser aprendida, mas sumamente necessária. Existem adultos que têm medo de dizer não a seus filhos, como se isso os fizessem menos queridos e, portanto, se submetem às ordens das crianças, impossibilitando-as de aprenderem a ficar às vezes sozinhas e de encontrarem o seu mundo interior, suas fantasias, etc.. Também existem adultos, que, infelizmente, nunca aprenderam a se relacionar consigo mesmos, que se mantêm na dependência da atenção dos outros o tempo inteiro. Esses não conseguirão ensinar tal necessária lição a seus filhos, pois ninguém pode ensinar o que não sabe. Mas, a esses filhos, felizmente restará sempre a chance de buscar aprender com outros seres humanos, como se relacionar consigo mesmo. (Ceres Araujo: é psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes) http://www2.uol.com.br/vyaestelar/familia_crianca.htm

domingo, 11 de janeiro de 2009

A teoria psicogenética de Henri Wallon

BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. A construção da pessoa em Wallon e a constituição do sujeito em Lacan. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, 152 p

...construção da pessoa na psicogenética walloniana (...). ...relaciona-se a um processo mais gradual, semelhante à edificação e ao modo como a personalidade se prolonga no tempo. P 13

Wallon não pressupõe a existência do inconsciente e nega a ênfase dada por Freud à sexualidade infantil. P 13

Wallon ressalta o papel fundamental das emoções para constituição do psiquismo,... p 15

Falar em construção da pessoa ou em constituição do sujeito é outorgar um papel fundamental para o sistema simbólico, para a linguagem e para os próprios conflitos, que vão nos orientar em busca de um “sempre mais além”. Em Wallon, esse mais além pode ser compreendido como inacabamento de um eu, que não cessa de buscar sua diferenciação ao longo da evolução humana.... p 15-16

A teoria de Henri Wallon (...) destaca o papel primordial da emoção (...). É por meio da emoção que se dá a passagem do orgânico ao social, do fisiológico ao psíquico. P 19

...Quando a afetividade prepondera sobre a inteligência, a pessoa passa a se voltar mais para a edificação de seu eu, de sua personalidade, num movimento centrípeto. Já quando a função da inteligência é predominante, o movimento volta-se para o exterior, para a exploração dos objetos e do conhecimento, tendo uma orientação centrífuga. O mais interessante é que entre as funções sempre existe um conflito, na medida em que uma pessoa precisa ser reduzida para que outra possa preponderar. P 19

A afetividade e a inteligência tem influências recíprocas, sendo que a evolução de uma provoca alterações significativas na outra. P 20

Grande ênfase é dada ao meio social e para as interações com o meio, pois é pelas interações que o sujeito vai se construir. P 20

Wallon concebe o social, mais especificamente a necessidade do outro, da interação com ele, como algo que se inscreve no orgânico. P 20

O meio social é a condição do desenvolvimento das capacidades biológicas, e na perspectiva genética é possível apreender como o orgânico se torna psíquico.[...]...o meio tem um papel primordial. P 21

A utilização do termo pessoa total ao longo de sua obra enfatiza a importância de se conceber a pessoa de forma integrada. O orgânico, assim como o psíquico, são investigados em suas relações recíprocas, da mesma forma que as relações do homem com o seu meio. P 21

A teoria walloniana, ...(...). Além de propor a integração dos principais campos funcionais (afetividade, inteligência e motricidade), está fundamentada no materialismo dialético, ... p 22

A psicogenética walloniana coloca em relevo a idéia do conflito como mola e motor da evolução. É o conflito que move a pessoa na busca de uma maior e melhor diferenciação de si e do conhecimento. A contradição e o conflito ocupam grande parte da obra de Wallon e as leis do desenvolvimento também evidenciam o papel das contradições e dos conflitos que possibilitam as transformações e os progressos da pessoa. P 23

A alternância das funções, afetividade e inteligência, já pressupõe a necessidade de um enfrentamento, pois para que uma delas possa assumir a preponderância é necessário que a outra reduza seu poder e sua influência para possibilitar um novo ponto de partida ao desenvolvimento. P 23

Tanto as influências do meio como o processo de maturação são os grandes responsáveis pela evolução psíquica da criança. P 24



Wallon mostrou um grande interesse pela Educação, pelas implicações da Psicologia e da Pedagogia, pelos debates a respeito da Escola Nova.... Ao romper com o ensino tradicional, no qual o professor era considerado o grande detentor do saber, a Escola Nova irá se diferenciar prioritariamente para buscar os interesses dos alunos, deixando um pouco de lado a importância da intervenção do educador como mediador do conhecimento, o que na opinião de Wallon é fundamental. P 25

A Escola Nova é considerada como o contexto privilegiado para o estudo e a observação da criança. P 25

O olhar walloniano.... Parte do pressuposto de uma investigação, orientada no sentido de privilegiar questões de observação...[...]. busca as contradições, os conflitos, as rupturas, nos diferentes momentos do desenvolvimento. p 26-27

Não basta observar, é preciso contextualizar as observações, buscar estabelecer relações entre elas, ampliar a análise para que se possa compreender melhor os comportamentos inseridos num determinado contexto e sua influência sobre eles. P 28

Por meio dos estudos de Wallon podemos perceber o quanto é precioso cada movimento, cada gesto, cada expressão, e desta forma, é fundamental que estejamos sempre atentos para eles, que são ricos instrumentos e nos dão inúmeras pistas para um momento posterior de análise. P 28

...o bebê sente a presença das pessoas, principalmente das que cuidam dele, e reage a elas de forma predominantemente emocional. (...).O olhar walloniano sobre o comportamento predominantemente emocional do bebê humano coloca em relevo o poder da inscrição do orgânico sobre o psíquico,... P 29

A teoria enfatiza o intenso movimento de construção de um eu, ainda frágil, que luta para afirmar-se pela oposição ao outro, pela busca de admiração e de reconhecimento, e pela tentativa de incorporação do outro por meio da imitação. P 30

Ao tentar diferenciar-se do outro, a criança esbarra em uma série de exigências, de desafios, de surpresas, com os quais tem de lidar ou as quais precisa solucionar. (...). O conflito característico do personalismo aponta para a busca de independência, ao mesmo tempo em que há uma necessidade de proteção. P 30-31

Outra característica importante da emoção é o seu poder de contágio, por meio do qual o contato é estabelecido pelo mimetismo ou por contrastes afetivos. (...). O impacto afetivo causado pelas manifestações da criança provoca um verdadeiro contágio emocional nas pessoas, que, conseqüentemente, passam a imprimir uma significação a elas. É a partir desse momento que começa a se estabelecer um circuito de trocas mútuas entre a criança e o meio, que possibilita a correspondência entre os próprios atos e os respectivos efeitos. P 47

A emoção é, então, o ponto de partida do psiquismo, da consciência e da vida social, uma vez que é através dela que vão se estabelecer as primeiras trocas da criança com o meio humano. P 48

Wallon (1968) afirma que as emoções são a exteriorização da afetividade, que elas tornam possível o desenvolvimento de meios de expressão cada vez mais complexos e, ainda, transforma-os em instrumentos de sociabilidade cada vez mais especializados. À medida que se tornam mais elaborados e precisos, o seu significado passa a ter maior independência e, conseqüentemente, separam-se da emoção. P 48

ESTÁGIOS DO PSIQUISMO OU PERSONALISMO: .....emoção, ....representação, ... e imitação.

O eu, para se constituir, precisa diferenciar-se do outro, libertar-se gradualmente do sincretismo e adquirir a noção do próprio corpo, para, só assim, processar a consciência de si. A noção do próprio corpo também se constitui por etapas e para adquiri-la é preciso que se realize uma distinção entre os elementos atribuídos ao próprio corpo e os demais diretamente relacionados com o mundo exterior. P 50-51

O advento da representação é fundamental para que a criança possa identificar sua personalidade e a dos outros, ultrapassando o espaço de suas percepções e realizando a aptidão simbólica de desdobramento e de substituição; condição para o nascimento do pensamento e da pessoa. P 51

Ao mesmo tempo em que se afirma perante o outro, opõe-se a ele e mostra um claro desejo de apego às pessoas que a cercam e com as quais passa a se identificar. A imitação marca o terceiro momento do personalismo, por meio da qual a criança escolhe os adultos que ela admira e busca imitá-los e assimilá-los dentro de si mesma. P 52

...o movimento de identificação e dissociação da personalidade se orienta predominantemente pela busca de independência e de autonomia, passando pela oposição intensiva ao outro, depois pelo exibicionismo e, num terceiro momento, buscando substituir e incorporar o outro em si mesmo. Para constituir e enriquecer o eu, é necessário diferenciar-se do outro para afirmar-se a si próprio. Ao mesmo tempo, é preciso identificar-se com as pessoas que são admiradas para buscar “introjetá-las” em si. Assim, a constituição da personalidade é permeada por conflitos, antagonismos e verdadeiras crises, que reaparecem com grande intensidade no período da adolescência. P 52

A criança passa a se colocar a questão do seu eu em relação aos outros, e a partir das relações que estabelece com a sua família pode construir uma referência de conjunto, no qual tem um lugar e um papel específico. Dentro da constelação familiar aprende a se situar em relação aos outros irmãos, aos pais, como um elemento fixo e, aos poucos, toma consciência da estrutura familiar. Ao mesmo tempo em que se sente muito solidária com a família, está buscando intensamente sua independência. P 53

O estágio da puberdade e da adolescência é caracterizado por uma crise na qual as exigências da personalidade passam novamente para o primeiro plano. Nesse momento, o que predomina são as necessidades do eu e as preocupações da pessoa. P 54

Na puberdade, devido às inúmeras modificações pelas quais passa seu corpo, a criança desorienta-se em relação a si mesma tanto no que relaciona com o seu físico como com o seu ponto de vista moral. [...]. A vida afetiva, nesse momento, torna-se muito intensa e existe um forte desejo de mudança acompanhado de um descontentamento associado à sensação de desorientação, fazendo com que o jovem acabe não sabendo para onde se voltar, por que estrada trilhar. P 55

O desejo de ultrapassar a vida cotidiana, de se unir a outros jovens que compartilhem desse anseio, a necessidade de fazer escolhas, marcam a tomada de contato com a sociedade e assinalam uma evolução decisiva da pessoa. [...]. A personalidade adulta vai se construir a partir dessa inquietude, ... p 55

É fundamental esclarecer que Ana psicogenética walloniana a pessoa ´um projeto inacabado que estará sempre lutando para construir-se a reconstruir-se, tendo como proposta principal alcançar cada vez mais e melhor a diferenciação de seu eu e de sua personalidade. P 56

A pessoa vai se construindo ao longo de sua evolução, tendo na emoção a origem do seu psiquismo. À emoção estão intimamente relacionados os processos de fundo exclusivamente orgânicos, ou seja, as descargas impulsivas provenientes das necessidades fisiológicas do bebê humano. P 56

....é por meio das interações com os outros que as manifestações expressivas se exteriorizam, tornam-se cada vez mais intencionais e, pelo seu caráter expressivo, podem ser interpretadas pelo ambiente e por ele influenciadas. P 56

Apesar de a relação de semelhança entre a imagem e o modelo ser percebida, ainda não é possível reduzir uma à outra e, conseqüentemente, atribuir uma realidade independente a ambas. [...]. A representação do próprio corpo só pode se formar exteriorizando-se e precisa da distinção das partes de seu corpo, do distanciamento da experiência imediata e das representações das coisas para isso. Tal aprendizado é conseqüência do contínuo exercício de aprender seu próprio corpo em relação aos demais, da utilização de analogias e assimilações e da diferenciação que gradualmente se estabelece entre os diferentes aspectos, para que a representação de si possa ser adquirida. P 58

Evidencia-se, assim, a complexidade envolvida no processo de conscientização do eu corporal, uma vez que esta pressupõe um nível mais evoluído de atividade intelectual e capaz de realizar uma verdadeira transposição mental. P 58

A consciência corporal é a condição fundamental para o início da consciência de si, pode-se dizer que é o prelúdio da construção da pessoa que contempla necessariamente a diferenciação eu-outro. P 59

O eu seria conhecido por intermédio da intuição, enquanto o outro, por analogia. P 59

...na teoria walloniana a consciência irá ser construída ao longo da evolução em uma orientação clara para a progressiva diferenciação de si. P 60

As influências entre o eu e o outro são recíprocas e variam de acordo com as situações, com as necessidades próprias dos diferentes momentos de evolução. P 60

Quando Wallon se refere aos vários “Eus”, ele os está relacionando com os diferentes momentos da evolução e afirmando que se trata de um único Eu, que se diferencia e complexifica-se cada vez mais e melhor. P 61

Assim como o Eu, durante o seu processo de constituição, vai apresentando diferentes aspectos e funções ao longo da ontogênese, o Outro também vai se modificando, na medida mesmo da sua íntima e recíproca conexão com o Eu. P 61

...podemos perceber que o ciumento intensifica os seus sentimentos ao perceber mais claramente os supostos prazeres do Outro. P 62

Na teoria psicogenética, os diferentes momentos da evolução humana são marcados pela alternância entre as funções da inteligência e da afetividade, na medida em que cada uma delas passa a ser preponderante em cada etapa do desenvolvimento. Após o estágio do personalismo, predominantemente voltado para o enriquecimento do Eu e orientado pela função da afetividade, ocorrerá uma inversão funcional que introduz uma nova diferenciação, dessa vez mais relacionada ao desenvolvimento do próprio pensamento. P 62

...a criança necessita primeiro afirmar-se como um corpo, um eu corporal, para depois perceber-se como uma imagem refletida, exteriorizada, que aos poucos toma a forma de consciência de si. P 64

...o advento da representação é fundamental para que seja possível identificar a própria pessoa e a dos outros, ultrapassando o espaço das percepções e realizando a aptidão simbólica de desdobramento e de substituição. P 64

O estágio do personalismo é marcado por três momentos distintos: a oposição, a sedução e a imitação.A oposição intensa, e muitas vezes sem motivo aparente, precisa ser compreendida como busca de afirmação de si, de uma personalidade em construção, de um eu que apenas está iniciando sua diferenciação com o outro. P 65

A distinção do eu e do outro aparece de início em relação aos objetos, expressando-se na forma do teu e do meu. È em relação aos objetos que inicialmente fará a discriminação e lutará para obter a posse dos mesmos. P 65


Logo depois da fase inicial de oposição surge a sedução, ou “idade da graça”. A criança agora precisa ser admirada, sentir que agrada aos outros para poder se admirar também. (...). Ao mesmo em que se afirma perante o outro, opõe-se a ele e mostra um claro desejo de apego às pessoas que a cercam e com as quais passa a se identificar. P 66

Nesse momento a criança torna-se não só competitiva, mas ciumenta. Precisa ser prestigiada, mostrar que possui qualidades para serem admiradas, mostrar-se no que ela acredita poder agradar aos outros e ter exclusividade de atenção. P 66

A imitação marca o terceiro momento do personalismo, por meio da qual personagens são criados a partir das pessoas que a criança admira e que deseja substituir em si mesma. Ela não se basta mais com suas próprias qualidades e passa a cobiçar as dos outros, querendo-os como modelos. P 66

...para constituir e enriquecer o eu, é necessário diferenciar-se do outro e afirmar-se a si próprio. Ao mesmo tempo, é preciso identificar-se com as pessoas que são admiradas no sentido de buscar internalizá-las em si. As relações da criança co as pessoas com as quais convive são marcadas por influências recíprocas, podendo ser consideradas como ocasiões ou motivos para ela se exprimir. Ao conferir-lhes existência fora de si, torna-se possível a distinção do eu e do outro, que é seu complemento indispensável. P 67

Ao tomar consciência de sua pessoa distinta do outro, confirmá-la, a criança vai buscar compreender a sua posição nas relações com os outros e, (...). Ao mesmo tempo em que se sente muito ligada à família está buscando intensamente sua independência. (...). Enquanto busca a independência tem necessidade de se assegurar do afeto dos outros. P 68

O eu que está sendo conquistado ainda é frágil e para poder construir-se necessita passar por esses três momentos distintos e complementares, que são o extremo negativismo marcante no início do personalismo, a sedução que necessita da admiração das pessoas às quais está ligada afetivamente e, por fim, a imitação para poder internalizar as qualidades e as competências das pessoas queridas no próprio eu. P 68



A escola é um meio para a constituição dos grupos, que são os indicadores das práticas sociais. Wallon (1979), ao estudar a influência dos grupos na evolução do sujeito, afirma que estes são importantes para a aprendizagem social da criança, para o desenvolvimento de sua personalidade e para a consciência de si própria. Na sua inserção no grupo, a criança se depara com duas exigências básicas: identificar-se com o grupo na sua totalidade, com os interesses e aspirações de seus integrantes, e diferenciar-se dos outros, assumindo um papel determinado. P 68-69

...a partir do momento em que a pessoa passa a ter consciência de si, podemos dizer que um novo personagem entre em cena, configurando-se como um outro eu, uma subdivisão, bipartição íntima, denominado socuis. P 69

O socius é o companheiro permanente do eu e exerce uma função de intermediário entre o mundo interior e o exterior, muitas vezes funcionando como confidente, conselheiro ou censor. P 69

Pensar a pessoa na psicogenética walloniana implica compreendê-la no seu contexto sociocultural, biológico, e integrada pelas funções da afetividade, da inteligência e do ato-motor. P 69

O advento da representação é fundamental para que seja possível identificar a própria pessoa e a dos outros, ultrapassando o espaço das percepções e realizando a aptidão simbólica de desdobramento e de substituição; condição para o nascimento do pensamento e da pessoa. P 70

Graças `aptidão simbólica, a criança pode elaborar mentalmente o espaço, distribuir os objetos no espaço e no tempo, representá-los e estabelecer signos para as representações. A passagem do ato-motor ao ato mental, da inteligência das situações à inteligência discursiva, mostra não só uma evolução em relação à espacialização como também uma tendência para fixar imagens. P 72

Wallon destaca o papel fundamental da imitação para o advento da representação, afirmando que as etapas sucessivas da imitação possibilitam que a representação, que ainda não existia, possa formular-se. P 72

...a presença do outro, o seu olhar, a sua escuta, e a oportunidade de interagir com a criança são condições fundamentais para a evolução de seu psiquismo. P 75


O reconhecimento da própria imagem no espelho tem como condição a capacidade de simbolização e de percepção espacial. O acesso à função simbólica e à capacidade de representação encontra-se intimamente ligado ao desenvolvimento da linguagem e às etapas sucessivas da imitação. P 80

Ao brincar, a criança se coloca no lugar do outro, desempenhando ações semelhantes, mas sem precisar tê-lo em presença, uma vez que já pode representá-lo na ausência, mostrando assim uma nova capacidade de assimilar o outro, seus respectivos papéis e a própria realidade. P 81

Para construir sua personalidade, a criança precisa diferenciar-se do outro e opor-se a ele. O educador, no momento da roda, poderia propor que as crianças conversassem entre si, falassem de seu cotidiano, de sua vida fora da escola, que pudessem se identificar e ao mesmo tempo se diferenciar das outras crianças. P 84

__________________ LACAN_____________________

(sobre o pensamento de Lacan) ....A razão de ser da constituição passa a ser procurada nas relações do sujeito consigo mesmo, do sujeito como um outro, dele com sua exterioridade. A atividade diante do espelho toma um sentido de uma pesquisa de si feita pela própria criança. (...). É por meio da imagem que o sujeito vai se constituir. P 93

(para Lacan) .... A criança não projeta no espelho a sua imagem, e o que ela vai introjetar é a imagem que a própria família construiu para ela. Com isso quero dizer que o que vai ser determinante na imagem especular é o seu caráter ilusório, falso, contornado pelos desejos e ideais alheios. É essa identidade alienante que marcará o psiquismo da criança, na medida em que ela vai ocupar o lugar do desejo dos pais e ao introjetar a imagem especular, ela passa a assumi-la como se fosse sua. P 103

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Penso que a psicanálise pode subsidiar a Educação, ampliando a visão do educador sobre os processos psíquicos, alertando-o para uma nova e revolucionária dimensão do sujeito humano, que é o inconsciente, o lugar no qual se produz um sentido mesmo sem sabê-lo. P 119

Uma situação bem comum nas escolas é aquela em que as crianças buscam repetidas vezes sair da sala para fazer xixi, como uma forma de escapar da monotonia das atividades e buscar prazer em outra coisa. Os professores, por sua vez, constatam o fato mas não admitem, e nem sequer tentam compreender, o que acontece na sala de aula que faz com que as crianças queiram sair a toda hora. P 120

Os adultos tentam interpretar as ações das crianças e tecem para elas uma série de expectativas e desejos. As crianças, por outro lado, jogam com essas imagens e acabam ficando capturadas por elas, acreditando que são o que os pais, os educadores, pensam sobre elas. P 120

Os educadores acreditam que, por terem um conhecimento teórico sobre as crianças, é possível conhecê-las e saber como pensam. Isso é um engano, pois cada criança tem sua singularidade própria, um jeito diferente de lidar com esse jogo de expectativas e de desejos. É por este motivo que é fundamental resgatar a palavra da criança, para possibilitar que ela venha a ser mais sujeito do que objeto. P 121

Lacan critica a Pedagogia e a Psicologia, pois acreditam no saber completo e total, no saber universal, diferente da Psicanálise, que reconhece que o saber é incompleto e que é tecido a partir da linguagem e da fala. P 121

Tanto a família como os educadores “jogam” suas expectativas em cima das crianças, que precisam ter chance de escapar desse aprisionamento, ou mesmo da classificação dos estágios de desenvolvimento, para assim poderem ter uma fala própria. P 121

A mesma criança “boazinha” precisa ter espaço para poder ser diferente, expressar um desagrado pela professora ou pela atividade sem deixar de ser reconhecida, mas em um lugar diferenciado. Ou mesmo o aluno que sempre faz bagunça, atrapalha os colegas, não se concentra, precisa ser ouvido, ter novas oportunidades para agir e se expressar de forma diferente, e não ficar rotulado como “o aluno chato que só atrapalha”. P 121-122

É importante demarcar que o educador deve respeitar as escolhas das crianças sobre suas ações, sobre as parcerias que procura estabelecer, ou não; e até pelo seu silêncio, que não deixa de ser uma forma de expressão. As interações são fundamentais, mas é necessário que a criança possa optar por ficar sozinha e desenvolver suas próprias ações, observações, ou um distanciamento momentâneo dos outros. P 123

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Origem e evolução do cérebro e da mente


McCRONE, John. Como o cérebro funciona. São Paulo: Publifolha, 2002, 72p.

De acordo com a rota holística, os cérebros são a expressão de um propósito. Eles existem para tomar decisões e o fazem seguindo uma trajetória adaptativa. Durante gerações, vidas inteiras e frações de segundo, eles se concentram para formar padrões neurais que “conhecem” o mundo. P 52

Cerca de 4,5 milhões de anos atrás, uma ramificação dos macacos – os hominídeos – aprendeu a caminhar sobre duas pernas. Havia muitas espécies diferentes de hominídeos que perambulavam pela paisagem africana. Há 1,8 milhão de anos, um deles evoluiu para o Homo erectus, 1,80 metro, robusto, com cérebro três vezes maior que o de um chimpanzé. O erectus era caçador, usava fogo e ferramentas de pedra. [...]. O Homo sapiens apareceu em cena 100 mil anos atrás. (...) a diferença impressionante é que somos uma espécie simbólica. Há 40 mil anos estamos nos sujando de tinta, entalhando, esculpindo figurinos e até decorando nossas cavernas com cenas de caça. Nossos mortos são enterrados com rituais. P 53-54



PINKER, Steven. Como a mente funciona. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 666p

...a mente é um sistema de órgãos de computação, projetados pela seleção natural para resolver os tipos de problemas que nossos ancestrais enfrentavam em sua vida de coletores de alimentos. (...). O funcionamento dos módulos foi moldado pela seleção natural para resolver os problemas da vida de caça e extrativismo vivida por nossos ancestrais durante a maior parte de nossa história evolutiva. P 32

Nossos órgãos de computação são um produto da seleção natural (...). Nossos programas mentais funcionam a contento porque foram moldados pela seleção para permitir a nossos ancestrais o domínio sobre as pedras, utensílios, plantas, animais e outras pessoas, em última análise a serviço da sobrevivência e reprodução. (...). Mas a seleção natural é a única força evolutiva que atua como um engenheiro, “projetando” órgãos que conseguem resultados improváveis mas adaptativos. P 47

...a seleção atua ao longo de milhares de gerações. Durante 99% da existência humana, as pessoas viveram da coleta de alimentos, em pequenos grupos nômades. Nosso cérebro está adaptado a esse modo de vida extinto há muito tempo e não às recentíssimas civilizações agrícolas e industriais. Ele não está sintonizado para lidar com multidões anônimas, escola, linguagem escrita, governo, polícia, tribunais, exércitos, medicina moderna, instituições sociais formais, alta tecnologia e outros recém-chegados à experiência humana. Como a mente moderna está adaptada à Idade da Pedra, e não à era do computador, não há necessidade de forçar explicações adaptativas para tudo o que fazemos. P 53